quarta-feira, 27 de abril de 2011

Justiça condena Rio Grande do Sul a indenizar torturado em regime militar (Postado por Erick Oliveira)

A 5ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) condenou o Estado do Rio Grande do Sul a pagar uma indenização de R$ 200 mil, por danos morais, a um homem que foi torturado durante o regime militar, em 1970. A decisão, que foi unânime, é de 20 de abril deste ano.
Segundo o TJRS, mesmo tendo sido a decisão em 1º Grau, por ter sido unânime, não cabe mais recurso junto à Justiça Estadual. Cabe recurso apenas junto ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou ao Supremo Tribunal Federal (STF).
O autor da ação conta que foi preso em casa em abril de 1970, na época com 16 anos, e liberado em agosto do mesmo ano. No período em que esteve preso, segundo a decisão, narra que foi interrogado por meio de tortura, com choques elétricos nas orelhas, mãos e pés. Na época da detenção, o autor trabalhava como auxiliar de escritório no Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Caxias do Sul.
Ao sair da prisão, o jovem teria sido proibido de voltar a estudar e continuou sendo visitado por militares.
De acordo com o Tribunal de Justiça, em dezembro de 1974, o Conselho Permanente de Justiça do Exército absolveu o autor por falta de provas de acusações com base na Lei de Segurança Nacional, decisão confirmada em Brasília pelo Superior Tribunal Militar. Em outubro de 1998, a Comissão Especial criada pelo Estado do Rio Grande do Sul acolheu o pedido de indenização e fixou o valor em R$ 30 mil, quantia entregue ao autor em dezembro do mesmo ano.
Em 2008, considerando que a indenização foi insignificante frente aos danos causados, o autor solicitou na Justiça uma nova indenização. Em setembro de 2009, o Juízo da 2ª Vara Cível Especializada em Fazenda Pública de Caxias do Sul julgou extinta a ação. Dessa sentença, o autor recorreu ao Tribunal de Justiça.
Na atual decisão, o Desembargador Jorge Luiz Lopes do Canto, relator do processo, considerou que é inaplicável o prazo prescricional previsto na legislação e reconheceu a imprescritibilidade da ação de indenização referente a danos ocasionados pela tortura durante a ditadura militar.
A Justiça fixou então a indenização por danos morais no valor de R$ 200 mil. O Estado do Rio Grande do Sul foi condenado ainda ao pagamento das custas processuais e dos honorários dos advogados do autor, fixado em 20% do valor da condenação.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Ney Ortiz, 47 anos depois do golpe: "Jango ia mudar o Brasil" (por Osvaldo Maneschy)


 
“Não me arrependo de nada do que fiz e se tivesse que fazer tudo de novo pelo Brasil e pelo Presidente João Goulart, eu faria”, afirmou o ex-deputado gaúcho Ney Ortiz Borges, 87 anos, vice-líder do Governo João Goulart no Congresso Nacional, cassado e perseguido pelo golpe militar de 1964, em palestra nesta sexta-feira (31/3) na sede nacional da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini, no Centro do Rio, promovida pelo Movimento de Aposentados, Pensionistas e Idosos do PDT (MAPI).  (Ney Ortiz (D) com Christopher Goulart (E), neto de Jango)
“Jango queria transformar as estruturas sociais do Brasil com as reformas de base, objetivo que perseguiu de todas as maneiras”, relatou Ortiz Borges, acrescentando que, a pedido dele,  viajou por todo o país -  pregando essas reformas.  Sobre o período conturbado disse ainda que se não tivesse ocorrido o golpe, hoje o Brasil já seria a maior potência do planeta.  “O golpe de 64 destruiu aquele projeto fantástico”, frisou.
HERANÇA
Emocionado, Ney Ortiz Borges passou às mãos de Maria José Latgé, presidente do MAPI, cópia de documento que lhe foi entregue pessoalmente, em 1964, pelo Presidente João Goulart, contendo uma síntese de 12 páginas do projeto das Reformas de Base, muito maior e extenso. Explicou que para ele é fundamental que “o projeto que pretendia passar o Brasil a limpo” seja conhecido pelas novas gerações. “Infelizmente não tivemos a alegria de implantá-las para melhorar a vida das pessoas porque veio o golpe, mas as reformas de base são atualíssimas e não podemos esquecê-las”, destacou.
Citou como exemplo a reforma agrária. “Jango, no Comício da Central, chegou a anunciar que desapropriara  as áreas contíguas às rodovias federais, dos dois lados, para assentar nelas trabalhadores rurais sem terra”, lembrou.
Ortiz Borges relatou que em 2001, a pedido do então presidente do PDT gaúcho, Matheus Schmidt, falecido ano passado, fez um levantamento de todas as realizações do Governo João Goulart.
Citou entre elas a criação da Eletrobrás, da Embratel; das usinas siderúrgicas Usiminas, Cosipa e Ferro e Aço de Vitória – que na sua opinião revolucionaram o setor; a criação das aposentadorias especiais para celetistas; a promulgação da Lei do 13° salário; o aperfeiçoamento da Lei da Remessa de Lucros; o fortalecimento da aplicação das Leis Trabalhistas de  Getúlio; e a mobilização nacional pelas reformas de base: a agrária, a urbana, a educacional, a fiscal, a bancária e a administrativa.  “O Governo de João Goulart caiu por causa disso”, garantiu.
Signatário da Carta de Lisboa de 1979, Ney Ortiz Borges participou do movimento para reorganizar PTB e depois o PDT, quando o TSE tirou a sigla de Brizola e a entregou a Yvete Vargas.  Ortiz Borges também passou às mãos de Maria José Latgé um papel amarelado pelo tempo contendo a lista dos componentes originais da 114ª. Zona Eleitoral de Porto Alegre, que organizou e presidiu a partir de 1981, que tinha na 11ª. posição, entre os fundadores, Dilma Roussef - atual presidente do Brasil.
Além do ex-parlamentar, o ato organizado pelo MAPI para recordar as lições que ficaram após os 47 anos do golpe militar, também contou com depoimentos de Trajano Ribeiro, primeiro palestrante;  Eduardo Chuahy, Capitão do Exército e oficial de Gabinete de Jango, na época; Eduardo Costa, ex-secretário de Saúde de Brizola, e líder da UNE em 1964; Leonel Brizola Neto, Vereador no Rio de Janeiro e o jornalista e escritor José Augusto Ribeiro, além do Vereador Jorge Mariola, de São Gonçalo, e do presidente da Fundação Leonel Brizola – Alberto Pasqualini, seção Rio de janeiro .
Trajano Ribeiro, também signatário da Carta de Lisboa, como Ney Ortiz, fez um relato sobre os antecedentes e a movimentação política que levou a deflagração do golpe militar de 64, do ponto de vista histórico, e as suas conseqüências  e implicações – detendo-se na trajetória política de João Goulart, o herdeiro político de Getúlio Vargas, do início de sua carreira política até ser deposto e, posteriormente, ser vítima da Operação Condor segundo relato de um agente da repressão preso no Uruguai.  Segundo Trajano, Jango foi morto por ordem da CIA.
No episódio da morte de Jango, Eduardo Costa pediu a palavra e lembrou que João Vicente Goulart, que não pode acompanhar o sepultamento do pai em São Borja, por estar no exterior; uma semana depois, em Porto Alegre, quase foi vítima da repressão ao final da missa de 7° dia do pai, quando cavalarianos da Brigada Militar receberam ordens de dissolver a multidão que saía da missa e João Vicente, na época ainda criança, quase foi atropelado pelos cavalos.
João Vicente Goulart foi o grande ausente da reunião, por não ter tido condições de se deslocar de Brasília, onde vive atualmente, para o Rio de Janeiro.
O Vereador Leonel Brizola Neto (PDT), outro orador,  fez questão de assinalar que ouvindo Ney, Trajano Ribeiro,  Eduardo Costa e Chuahy sentia a importância e o peso histórico da legenda do PDT.  “Sinto-me honrado de estar aqui, participando de tudo isto, ouvindo essas pessoas darem os seus depoimentos e lamento que não tenha aqui ninguém da direção nacional. Acho que precisamos discutir os rumos do PDT porque precisamos, mais do que nunca, retomar o fio da História”, disse.
Leonel Brizola Neto disse que não poderia deixar de lembrar, naquela reunião, a história de seu outro avô, Carlos Daudt, pai de sua mãe Nereida, oficial da Força Aérea Brasileira que, servindo na base aérea de Canoas, no episódio da Legalidade, não atendeu à ordem dos golpistas de bombardear o Palácio Piratini, onde estava Brizola e por isso foi perseguido.
 “Meu avô, por sua atitude patriótica em 61, foi preso e torturado em 1964 e proibido de fazer o que mais gostava na vida, voar”. Brizola Neto lembrou também que o seu avô, de rígida formação militar, acabou morrendo de Alzheimer depois de uma vida dificil.  “Meu avô sofreu muito e lembro que ele nunca conseguiu externar com palavras as torturas que sofreu porque ficava muito emocionado e se calava”, relatou Brizola Neto.
Até por conta do peso histórico das pessoas que militam no PDT, acrescentou o Vereador, o PDT não pode ter lideranças burocráticas e tem que estar permanentemente voltado para as suas bases, a sua história e a sua militância.
“Estou na política por causa dessa história de lutas”, confessou Leonel Brizola Neto.
A reunião, que começou às cinco da tarde, só terminou às nove da noite após vários dos presentes se manifestarem. Entre os presentes estava o ex-deputado Feliciano Araújo, um dos fundadores da Ala Moça do antigo PTB, onde desempenhou o cargo de Secretário Geral, enquanto Ney Ortiz Borges ocupava a presidência.
No debate, entre outros pontos, foram discutidas políticas públicas para as áreas da educação,  de segurança pública e da Juventude. Chuay e Eduardo Costa fizeram relatos sobre as relações do Governo Goulart com os estudantes, repassando episódios ocorridos, falando do peso que as organizações estudantis tinham na época, no âmbito do governo central. A participação do PDT no governo de Sérgio Cabral também foi abordada, como também a questão da Educação em horário integral.
Antes do término da reunião, Maria José Latgé apresentou aos presentes o N° 1 das “Cartilhas Trabalhistas” editadas pelo Mapi, esta sobre o Governo João Goulart, editada pela Nitpress,  com texto do jornalista José Augusto Ribeiro e vendida a R$ 5,00; e anunciou para junho o lançamento da Cartilha ° 2, sobre Leonel Brizola

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A morte de Getúlio Vargas (Do Blog do Noblat)

Nota do Painel do Paim: 

A matéria seguinte, publicada em 2004, "vale a pena" ser reproduzida. 

Não obstante a sua morte, há mais de meio século, o maior vulto da história do país, no século XX, persiste mais vivo do que nunca, cujas idéias, foram continuadas por João Goulart e Leonel Brizola, enquanto seus detratores jazem, quase insepultos, na cova rasa da história. 

O ideário de Vargas é conservado pelo PDT (partido fundado por Brizola e constitui seu maior legado), difundido pelos seus membros, pelo seu Presidente e atual Ministro do Trabalho, Carlos Lupi e, igualmente, pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, segundo sua própria manifestação, ao ensejo da memorável convenção de São Paulo, quando o partido do verdadeiro trabalhismo brasileiro, aprovou a sua candidatura às eleições de 2010 (Edson Paim escreveu). 

Eis o artigo do Noblat:  

 

23/08/2004 02:19

De volta ao passado

Amanhã fará 50 anos que o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas, nascido em São Borja a 19 de abril de 1883, deu um tiro no próprio peito e saiu da vida para entrar definitivamente na História do Brasil. É o nosso maior mito político, ainda hoje apontado em pesquisas de opinião pública como o melhor presidente da República que o país já teve.
Foi chefe do governo provisório depois da Revolução de 1930, presidente eleito pela Constituinte em 17 de julho de 1934, e ditador entre 10 de novembro de 1937 e 29 de outubro de 1945 quando foi deposto pelos militares. Retornou ao poder eleito pelo voto popular em 31 de janeiro de 1951. Para finalmente se matar na no dia 24 de agosto de 1954, escapando de ser novamente deposto.
Se o marqueteiro Duda Mendonça tivesse idade, engenho, disposição e chance para ter servido à Getúlio naquela época, seu famoso slogan que elegeu Paulo Maluf prefeito de São Paulo (“Foi Maluf quem fez”), reciclado agora para tentar reeleger a prefeita Marta Suplicy (“Marta fez”), se aplicaria com naturalidade ao presidente que escolheu a morte para continuar vivendo na memória coletiva.
Foi Getúlio quem fez a Companhia Siderúrgica Nacional para produzir aço, a Companhia do Vale do Rio Doce para extrair minério, a Petrobrás para explorar petróleo e a Eletrobrás para gerar energia. Foi Getúlio quem criou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e o Banco do Nordeste para financiarem investimentos públicos e privados.
Foi Getúlio quem deu às mulheres o direito de voto. Foi ele quem deu aos trabalhadores a legislação que ainda hoje disciplina suas relações com os patrões. E foi ele quem abriu as portas da administração pública para a admissão de funcionários por meio de concurso e do sistema de mérito. Finalmente, foi ele o arquiteto da estrutura política partidária nacional que vigorou no país até o golpe militar de 1964.
De resto, foi Getúlio quem fez o Brasil rural e atrasado de 1930 evoluir mais rapidamente para o Brasil industrial inaugurado, digamos assim, pelo presidente Juscelino Kubitschek no final do seu mandato.
Getúlio fez tudo isso sem levantar a voz, sem dar murros na mesa e negociando à direita e à esquerda – mais à direita. O aparelho de propaganda do Estado fez o resto. Fez dele “o bom velhinho” e o “pai dos pobres”. E, valendo-se da censura, escondeu o líder autoritário que governou como ditador durante oito anos, avalizou o emprego da tortura contra seus desafetos políticos, e permitiu que judias como Olga Benário Prestes, mulher do líder comunista Luiz Carlos Prestes, fossem deportadas para a Alemanha de Hitler e ali morressem. Olga morreu na câmara de gás de um campo de concentração.
Este blog, a partir do primeiro minuto de amanhã – uma terça-feira como aquela em que Getúlio se suicidou – viajará de volta ao passado para oferecer a mais completa cobertura dos fatos que marcaram para sempre a História do Brasil. Eu e vocês faremos de conta ao longo de 24 horas que amanhã é o dia 24 de agosto de 1954. E que nesse dia era possível fazer uma cobertura jornalística em tempo real.
A primeira notícia que postarei aqui, logo depois da meia-noite de hoje, dirá que o Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, está cercado por uma multidão enfurecida que berra pedindo a renúncia do presidente Getúlio Vargas. Na companhia da família e de alguns assessores, o presidente fuma um charuto, medita e aguarda a chegada do seu Ministro da Guerra. Dali a oito horas ele se matará. Mas nem ele mesmo sabe disso. E a multidão que sitiou o palácio ameaçando invadi-lo para dali escorraçar o presidente dará lugar a outra que chorará e rezará de joelhos inconformada com sua morte.
(Hoje à tarde darei detalhes da cobertura mais ambiciosa da história deste blog.)


23/08/2004 16:58
Daqui a 15 horas Getúlio se matará com um tiro no coração Vai ser assim a partir da meia-noite: faremos de conta que esta terça-feira é a terça-feira 24 de agosto de 1954. E que o presidente da República se chama Getúlio Vargas. E que ele está sendo pressionado por generais, almirantes e brigadeiros para renunciar ao cargo. À medida que os fatos forem se sucedendo, eles aqui serão postados mais ou menos na hora em que ocorreram. Getúlio encerrará uma reunião de emergência com seus ministros em torno das 4 da madrugada. Em seguida irá dormir. E dali a mais duas ou três horas será acordado pelo irmão. Dará o tiro no peito por volta das 8h – vocês ficarão sabendo detalhes disso 20 ou 30 minutos depois. E assim por diante.
Lá pelas 10h, quando manifestações de protesto estarão sendo registradas por todo o país, começarão a ser postados aos poucos depoimentos e artigos como se tivessem sido escritos logo depois do suicídio de Vargas. A situação econômica do país, por exemplo, será analisada pelo economista Raul Veloso. O jornalista Jânio de Freitas, então repórter do Diário Carioca, contará o que viu ao longo da madrugada de plantão na porta do Palácio do Catete. Millôr Fernandes narrará seu encontro com uma amiga pouco antes de saber que Getúlio se matara. O Diretor de O Estado de S. Paulo, Ruy Mesquita, lembrará que estava no Rio e que se reconciliara com Carlos Lacerda.
Pedro Simon era um estudante de 17 anos. E como tal refletirá sobre o impacto da morte de Getúlio no Rio Grande do Sul. O ministro José Viegas, da Defesa, revelará como a morte de Getúlio o livrou da prisão. Em entrevista ao blog, um menino de 10 anos de nome Cristovam Buarque contará o que se passou em sua casa no Recife. E muitas outras pessoas, famosas hoje ou não, também falarão.
Quem quiser poderá ouvir o então deputado Afonso Arinos, da UDN, discursando na Câmara em 13 de agosto de 1954 exigindo a renúncia de Getúlio. Foi um discurso que entrou para a História. E também 10 músicas e comerciais de rádio que fizeram sucesso em 1954.


24/08/1954 00:25
– A madrugada está quente no Rio Nas noites e madrugadas de agosto, a temperatura costuma ser amena no Rio de Janeiro. Mas nesta madrugada ela parece particularmente quente. Passa da meia-noite, já é terça-feira, dia 24 de agosto de 1954. As luzes continuam acesas na maioria das casas e no Palácio do Catete onde vive e despacha o presidente da República, Getúlio Vargas. E os rádios… Ah, sim. Muitos rádios estão ligados com os ouvintes atentos ao noticiário inflamado desde o assassinato no último dia 5 do major-aviador Rubens Vaz. Atiraram para matar Carlos Lacerda, o mais feroz adversário de Getúlio. O major-aviador que lhe dava proteção foi morto com dois tiros. Lacerda escapou com um leve ferimento no pé. O caso se tornou conhecido como o “Atentado da rua Tonelero”. É nessa rua que mora Lacerda. Getúlio está sob forte pressão para que renuncie ao cargo. O chefe de sua segurança, Gregório Fortunato, foi preso sob suspeita de ter encomendado o crime.


24/08/1954 00:40
– Generais reunidos Está em curso uma reunião de generais no Ministério da Guerra. Eles discutem qual deverá ser a posição definitiva do Exército depois que um numeroso grupo de brigadeiros assinou anteontem uma nota pedindo a renúncia do presidente da República. A Aeronáutica é a mais inflamada das armas desde o assassinato do major-aviador Rubens Vaz (ler nota abaixo). Almirantes reunidos ontem na casa de um deles também cobraram que Getúlio renuncie.
Os portões do Catete permaneceram ontem abertos como em dias normais. Mas o dia não foi normal. A noite não foi normal – centenas de pessoas pediram aos berros a queda de Getúlio a poucas quadras do palácio. Foram mantidas à distância por soldados do Exército. Tudo indica que esta madrugada será a mais anormal das madrugadas da história do Catete. Talvez da história recente do país.

24/08/1954 01:25
– Goulart consulta coronel O “queridinho” do presidente Getúlio Vargas deixou há 30 minutos o gabinete do Chefe de Polícia do Rio, coronel Paulo Torres. João Goulart, ministro do Trabalho, é o “queridinho” de Getúlio. Ganhou a confiança dele ainda em São Borja, cidade gaúcha onde Getúlio nasceu e tem uma fazenda. Foi Getúlio quem fez de Goulart um político. Foi Goulart quem ajudou Getúlio a se tornar um alvo ainda mais atraente para a oposição.
Goulart propôs e Getúlio concedeu um reajuste de 100% para o salário mínimo. O reajuste foi considerado absurdo pelos patrões em geral e pela oposição a Getúlio em particular.
No início desta madrugada, Goulart procurou o coronel Torres interessado em saber como está o clima político no Rio. O coronel confidenciou a um jornalista que não dorme há três dias. Goulart deve embarcar hoje para Porto Alegre.


24/08/1954 02:05
– Como foi o atentado contra Lacerda
O jornalista Otávio Bonfim, do Diário Carioca, foi “testemunha ocular” do atentado que resultou na morte do major-aviador Rubens Vaz e desatou a mais grave crise político-militar do atual governo de Getúlio. Bonfim conta aqui o que viu:
“Na noite do dia 5 de agosto, Carlos Lacerda realizara um comício no pátio do Colégio São José, na Tijuca, um dos mais conceituados estabelecimentos de ensino do Rio de Janeiro. Como sempre, fora feroz nos ataques ao presidente Getúlio Vargas, conforme relataram os repórteres que cobriram o encontro político. Essa seria a principal matéria da edição do dia seguinte do Diário Carioca (DC), um jornal pequeno, mas de muita força política e que faz do antigetulismo sua razão de ser. Armando Nogueira fora um dos repórteres destacados para cobrir o comício. Quando ele acabou de escrever a matéria, ficamos ainda conversando na redação (Av. Rio Branco, no 25) com o Prudente de Morais Neto (Pedro Dantas), comentarista político do jornal. Trabalho na sessão Internacional e Deodato no Esporte. Este possui um velho Packard, um carrão com estribo.
Já passava da meia-noite quando deixamos a redação. Armando ia na frente, ao lado do Deodato. Eu ia atrás. Entramos na Toneleros pela Praça Arco Verde, onde ela começa. A iluminação só era boa no centro da rua; junto aos prédios, imperava a penumbra. O prédio onde mora o Nogueira (vizinho ao do Lacerda pelo lado esquerdo de quem está de frente) fica praticamente no meio da quadra. Uma longa quadra que vai da Rua Paula Freitas até a Siqueira Campos. Pelo lado esquerdo de quem sobe a Toneleros, entre essas duas ruas fica a Hilário de Gouveia, onde há uma delegacia de polícia, entre a Toneleros e a Praça Serzedelo Correia.
Ao cruzar a Paula Freitas, Deodato diminuiu a marcha do carro. Armando – bom papo – conversava com Deodato. Eu olhava para fora. Foi quando vi o Lacerda, um homem de bom porte físico, figura inconfundível. Ele estava em companhia do filho Sérgio e conversava com um homem jovem (Vaz), que estava encostado num carro pequeno. Lacerda estava de frente para a rua e Vaz de costas. Lembro-me de ter dito: “Seria fácil atirar no Lacerda”. O carro do Deodato seguia lentamente e pararia três metros adiante.
Quando cruzamos o carro parado (de Vaz), Sérgio seguiu em direção à porta da garagem. Lacerda gesticulava muito. Quando Deodato parou o carro, em frente ao prédio onde morava o Armando, esse desceu e continuou conversando com o Deodato. Eu olhava para fora, pelo vidro traseiro. Lacerda despediu-se do homem (Vaz) e seguiu em direção à garagem. Vaz começou a andar no sentido da traseira do carro para assumir a direção. (Não chegou a entrar nele.) Nesse momento vi uma pessoa no meio da rua, empunhando um revólver (o pistoleiro Alcino do Nascimento). Os tiros começaram quase que imediatamente. Vaz foi atingido ao descer o meio-fio e caiu pesadamente. Tenho a impressão de que ele não viu o que ocorria.
Depois de abater Vaz, Alcino atira na direção seguida por Lacerda, que, instintivamente, procura proteção junto ao muro da garagem. Ele percebe que o filho está a salvo dentro da garagem. Saca o revólver e começa a atirar em Alcino, que, esgotado o tampo de sua 45, sai correndo pelo meio da rua iluminada até a Paula Freitas, onde um táxi o aguardava. Com o pistoleiro em fuga, Lacerda entra na garagem. Vi tudo pelo vidro traseiro do Packard do Deodato. Armando, do lado de fora, instintivamente subiu no estribo do carro e disse: “Atiraram no Lacerda”. As outras três pessoas (dois homens e uma mulher) que estavam próximas procuraram abrigo junto a uma árvore.
O instinto jornalístico funcionou imediatamente. Deodato movimentou o carro, com o Armando no estribo, até um botequim na esquina da Toneleros com a Siqueira Campos para telefonarem para o jornal. Saí do carro e fui ver quem estava caído. Fui o primeiro a chegar junto a Vaz, que arquejava já nos estertores da morte. Instantes depois, Lacerda sai pela porta principal do prédio onde morava e caminha em direção a Vaz, onde eu já me encontrava. Ele caminha normalmente e diz, com o vozeirão de barítono: “Pelo amor de Deus, vamos socorrer este moço, um pai de família”.
Um táxi passava pelo local. Simultaneamente, Lacerda e eu fizemos sinal para que parasse. Lacerda implorou ao motorista: “Vamos levar este moço para o hospital. Ele não pode morrer”. O motorista acede e desce do carro. Lacerda segura Vaz pelas pernas e eu pelos ombros (era pesado). O motorista ajuda e segura a vítima pela cintura. Colocamos Vaz no banco traseiro do carro grande. Nessa altura, Sérgio Lacerda tinha aparecido. Não me lembro ao certo quem seguiu no carro. Penso que foi o Lacerda. O motorista dizia que não iria sozinho, pois “não queria ter complicações.
Armando telefonou do botequim para o jornal, onde Pompeu de Sousa, chefe da redação, já terminara o trabalho e conversava com Prudente de Morais Neto. Pompeu determinou que fôssemos à redação para escrever a reportagem: “Nós vimos o atentado a Lacerda”. Foi um texto a duas mãos (do Armando) e três cabeças. O jornal abafou no dia seguinte com a foto de seus três repórteres na primeira página. Tivemos que narrar os fatos inúmeras vezes, inclusive na Delegacia de Polícia Especializada e na “República do Galeão”. Sempre ouvíamos o comentário: “A sorte de vocês é que trabalham para um jornal antigetulista. Se fossem da Última Hora [de Samuel Wainer, amigo de Getúlio], seria difícil explicar como estavam no local do atentado, na hora exata”.

24/08/1954 02:40
– Getúlio perdeu o sono Getúlio não dorme. No segundo andar do Palácio do Catete, ele aguarda a volta do seu ministro da Guerra, Zenóbio da Costa, e do chefe do Estado Maior das Forças Armadas, marechal Mascarenhas de Moraes. Eles trarão notícias frescas sobre a reunião dos generais. Getúlio sabe que sua sorte está sendo decidida pelos generais. Esses, por sua vez, sabem que Getúlio está disposto a só sair morto do Catete. “Só sairei morto daqui”, disse Getúlio mais de uma vez nos últimos dias. A pedido dele, a frase foi a manchete de capa do jornal Ultima Hora em sua edição de ontem.
O jornalista Samuel Wainer, dono do jornal, é aliado político de Getúlio. Foi autor da célebre entrevista publicada nos jornais dos Diários Associados onde Getúlio, recluso em sua fazenda de São Borja, admitiu ser candidato a presidente da República na eleição de 1950. Uma vez eleito, Getúlio mandou que o Banco do Brasil emprestasse dinheiro a Samuel para que ele criasse um jornal.
O Ultima Hora defende Getúlio e ataca Lacerda, dono da Tribuna da Imprensa. Os demais jornais baixam o pau em Getúlio.


24/08/1954 02:55
– Encurralaram o presidente
O Exército exige que Getúlio renuncie.
Foi isso que disseram há pouco ao presidente o general Zenóbio da Costa, ministro da Guerra, e o marechal Mascarenha de Moraes, chefe do Estado Maiorb das Forças Armadas. Getúlio ouviu-os em silêncio. Não perdeu a serenidade. Jamais perdeu. Nesse momento, os três ainda conversam na varanda do segundo andar do Catete que tem vistas para o jardim. Getúlio sabe o nome de cada planta do jardim do Catete. Ninguém morou ali mais tempo do que ele.


24/08/1954 03:00
– Getúlio convoca reunião de ministros O presidente Getúlio Vargas acaba de convocar uma reunião extraordinária do seu ministério. Auxiliares dele estão pendurados em telefones à caça dos ministros.
Há pouco, um avião militar fez um vôo rasante sobre o Palácio do Catete.


24/08/1954 03:20
– Catete isolado O boato de que Getúlio renunciou ou foi deposto atraiu curiosos e jornalistas para as proximidades do Palácio do Catete. A Polícia Especial do Exército estabeleceu um cordão de isolamento em torno do palácio. Ali só estão sendo admitidos ministros e assessores do presidente chamados para uma reunião de emergência.
Um repórter da Ultima Hora conseguiu entrar. Seus colegas de outros jornais protestaram inutilmente.


24/08/1954 03:30
– Igreja de prontidão O Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Jaime Câmara, deixou às pressas sua casa no bairro do Sumaré e foi direto para o Palácio São Joaquim, séde administrativa da arquidiocese. Está reunido com seus bispos auxiliares – Dom Hélder Câmara, Dom José Távora e Dom Jorge Marcos de Oliveira. O cardeal teme que a crise político-militar evolua para um golpe de Estado. E pior: que produza atos de violência.


24/08/1954 04:00
– A menina e o patrão Prossegue a reunião do presidente Getúlio Vargas com seus ministros. Dela também participam o chefe do Gabinete Militar da presidência da República, general Caiado de Castro, o genro de Getúlio, almirante aposentado Amaral Peixoto, presidente nacional do PSD, e Alzirinha, única filha de Getúlio e mulher de Amaral.
Sem cargo formal no governo, Alzirinha atua como uma espécie de secretária particular do presidente. É a pessoa na qual ele mais confia.
Ela se refere ao pai como “meu patrão”. O pai se refere a ela como “a minha menina”.
A “menina” não queria que o “patrão” disputasse a presidência da República em 1950. Achava-o velho para isso. E temia que lhe faltasse respaldo militar para governar.
Getúlio teve respaldo até recentemente – até o atentado da rua Tonelero no último dia 5.
Ele está em silêncio enquanto seus ministros tentam encontrar uma possível saída para a crise.


24/08/1954 04:10
– A frase do ano “O senhor Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”
(Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa em 01/06/1950. Getúlio foi eleito em outubro daquele ano com a mais consagradora votação conferida até então a um presidente no Brasil: 3,8 milhões de votos. Teve 600 mil votos a mais do que seu antecessor, o general Eurico Gaspar Dutra.)


24/08/1954 04:32
– A saída, onde está a saída? A reunião ministerial está no fim. O presidente Getúlio Vargas leu e releu em silêncio o “Manifesto de Solidariedade aos Brigadeiros” assinado por 37 generais da ativa. O documento lhe foi entregue pelo ministro da Guerra. Diz a certa altura: ”(a renúncia) seria o melhor caminho para tranqüilizar o povo e manter unidas as Forças Armadas”.
Os ministros Osvaldo Aranha, da Fazenda, e Tancredo Neves, da Justiça, propuseram a decretação do estado de sítio que suspende os direitos e as garantias individuais. Imaginam que um ato de força como esse seria capaz de garantir a permanência de Getúlio no poder.
Alzirinha quer que o pai resista – Goulart também quer.
O ministro José Américo de Almeida, de Viação e Obras Públicas, acha melhor que Getúlio renuncie para evitar “derramamento de sangue”.
O ministro da Aeronáutica disse que não controla mais seus comandados. O da Marinha admitiu que está mais ou menos na mesma situação do seu colega da Aeronáutica. O do Exército sugeriu que os generais concordariam com outra solução – talvez a licença temporária do cargo.
Getúlio ainda não disse o que pensa.


24/08/1954 04:45
– Democracia ou morte Getúlio pensa que encontrou uma saída para o impasse: a licença temporária do cargo.
O ministro da Guerra já deixara o Palácio do Catete ameaçando convocar tropas leais ao governo para prender os militares rebelados quando o presidente decidiu licenciar-se do cargo e registrou numa folha de papel: “Como os senhores não encontraram uma solução, eu tenho a minha. Eu me licencio, desde que os ministros militares assegurem a ordem e o respeito aos poderes constituídos. Do contrário, os revoltosos encontrarão aqui o meu cadáver”.
Em outras palavras: se o regime democrático for preservado, o presidente concorda em se afastar do cargo durante um período. Se essa garantia não lhe for dada, ele prefere morrer.


24/08/1954 05:02
- O flerte com a eternidade Em julho de 1950, a três meses de ser eleito presidente da República, Getúlio concedeu uma entrevista ao jornal Folha da Noite, de São Paulo. Nela, antecipou de maneira precisa a conjuntura dramática que agora tenta enfrentar.
Ele disse:
- Conheço o meu povo e tenho confiança nele. Tenho plena certeza de que serei eleito, mas sei também que, pela segunda vez, não chegarei ao fim do meu governo. Até onde resistirei? Se não me matarem, até que ponto meus nervos poderão agüentar? Uma coisa, porém, eu lhes digo: não poderei tolerar humilhações.
Ele disse também:
- Tenho 67 anos e pouco me resta de vida. (...) Empenhar-me-ei a fundo em fazer um governo eminentemente nacionalista. O Brasil não conquistou ainda sua independência econômica. Tudo farei nesse sentido. E por fim, disse:
- Terei de lutar. Se não me matarem.

24/08/1954 05:20
- Que dia será este? A Secretaria da Presidência da República divulgou a seguinte nota:
“O Presidente da República reuniu hoje o Ministério para o exame da situação político-militar criada no país. Ouvidos os ministros, cada um de per si, foram debatidos longamente os diversos aspectos da crise e as suas graves conseqüências. Deliberou o presidente Getúlio Vargas, com integral solidariedade dos seus ministros, estar em licença, passando o governo ao seu substituto legal, desde que seja mantida a ordem, respeitados os poderes constituídos e honrados os compromissos solenemente assumidos perante a Nação pelos oficiais-generais de nossas Forças Armadas. Em caso contrário, persistiria inabalável no seu propósito de defender as suas prerrogativas constitucionais com o sacrifício, se necessário, de sua própria vida”.
Getúlio trancou-se em seu quarto para dormir. A maioria dos ministros abandonou o palácio. Ainda estão lá os ministros da Fazenda e da Justiça.
Houve reforço na tropa que protege o Catete. Foi distribuído armamento pesado.
O ministro da Guerra está novamente reunido com os generais que querem ver Getúlio pelas costas. Tenta convencê-los de que a licença temporária do cargo pode vir a ser o melhor desfecho para a crise.
Alguns pontos do Rio estão severamente policiados - principalmente as cercanias de quartéis e de outras unidades militares. O dia começa a amanhecer. Mas que dia será este?

24/08/1954 05:30
- Do que Alzirinha tem medo Alzirinha está com medo!
Ela dispara telefonemas na tentativa de antecipar a reação dos militares à decisão do seu pai de se licenciar do cargo. Mas não lhe sai da cabeça a frase há pouco escrita por Getúlio sobre a possibilidade de "os revoltosos" encontrarem no Catete o cadáver dele.
Getúlio falou em morrer quando leu a nota dos brigadeiros exigindo sua renúncia: "Só morto sairei do Catete".
No último dia 13, Alzirinha encontrou na mesa de trabalho do pai um papel rascunhado por ele onde estava escrito: "Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte".
Ela não arredará o pé dali até ser escrito o epílogo da crise.

24/08/1954 06:00
- Café Filho é um homem feliz O vice-presidente Café Filho recebeu em casa o comunicado oficial sobre o pedido de licença que Getúlio encaminhará ao Congresso ainda hoje. Diz a Constituição que o presidente pode se licenciar por um prazo de até 90 dias.
Desde as primeiras horas da noite de ontem, entrando pela madrugada de hoje, reúnem-se em torno de Café Filho amigos, políticos e jornalistas, entre os quais, Carlos Lacerda.
Sussurram e trocam idéias a respeito da crise política. E vez por outra um deles vai ouvir o noticiário do rádio na sala principal do amplo apartamento da avenida Nossa Senhora de Copacabana.
As notícias são transmitidas a todo o momento.
Foi um dos amigos do vice-presidente, atento ao que dizia o rádio, quem antecipou, radiante, o que só agora se tornaria oficial: - O Getúlio acaba de pedir licença. Café Filho vai assumir o governo.
Todos, ali, brindaram ao novo presidente. E desejaram-lhe boa sorte.
Café Filho tenta disfarçar sua felicidade. Em vão.

24/08/1954 06:10
- Acertou na mosca "O tiro que arrebatou a vida ao infortunado Major Vaz atingiu-me também e ao meu governo pelas costas. De tudo isto restarão duas vítimas: ele e eu." (Confidência de Getúlio ao ministro Tancredo Neves, da Justiça, no dia seguinte ao do atentado contra Carlos Lacerda.)

24/08/1954 06:30
– Calmaria esconde a crise Os bondes começam a circular lotados pelas ruas principais do Rio.
Algumas pessoas idosas caminham pela calçada da praia de Copacabana.
Mercearias e quitandas registraram ontem um movimento fora do comum. Donas de casa anteciparam compras com receio de que o agravamento da crise político-militar resulte em tropas nas ruas e comércio fechado.
O Palácio do Catete continua guardado por tropa leal ao governo. Mas governo não há mais desde que Getúlio se conformou em pedir licença do cargo.
O que há agora é a expectativa de um novo governo – o de Café Filho, um político de relativa expressão apenas em seu Estado, o Rio Grande do Norte. A essa altura, sob efeito de remédios, ele dorme ou tenta dormir na casa de um amigo.
Julgou mais seguro deixar seu apartamento.
Do ponto onde me encontro dá para ver o mar crispado na altura do Leme, e a chegada à praia de algumas mulheres acompanhadas de filhos pequenos.
A calmaria na cidade não fornece a menor pista do que pode estar acontecendo nos bastidores da crise.

24/08/1954 06:46
– Um traidor em ação Café Filho traiu Getúlio.
No último sábado, ele procurou o presidente no Palácio do Catete e sugeriu uma dupla renúncia – a do presidente e a dele. Argumentou que essa seria a única alternativa ao golpe militar que acabaria derrubando os dois.
Getúlio nada lhe respondeu. Limitou-se a dizer que pensaria no assunto.
No dia seguinte, Getúlio chamou Café Filho ao Catete e disse que não renunciaria ao cargo. Estava muito velho para admitir humilhações.
O vice-presidente é também presidente do Senado. E foi nessa condição que ele discursou ontem no Senado contando o que havia proposto a Getúlio, o que ele lhe respondera no domingo, e oferecendo sua renúncia ao cargo de vice-presidente.
Foi visto depois em conchavo político com Lacerda em um dos apartamentos do Hotel Serrador.

24/08/1954 06:57
– Irmão de Getúlio pode ser preso Dois oficiais da Aeronáutica acabam de chegar ao Palácio do Catete e querem levar Benjamim Vargas para depor na Base Aérea do Galeão. Benjamim é irmão do presidente. É na Base Aérea que funciona o que ganhou o apelido de “República do Galeão” – o inquérito militar comandado por oficiais da Aeronáutica que apura o atentado da rua Tonelero.
Benjamim é suspeito de ter encomendado o crime por meio de Gregório Fortunato, chefe da guarda presidencial.
Gregório confessou sob tortura sua participação no episódio. Está preso.
Ainda não se sabe se Benjamim acompanhará os dois oficiais da Aeronáutica até a Base Aérea do Galeão.
A temperatura política voltou a ferver dentro do Palácio do Catete.

24/08/1954 07:23
– A solidão do poder que se esvai É pouco provável que Getúlio deixe seu irmão ir depor no inquérito que apura a morte do major-aviador Ruben Vaz, vítima do atentado da rua Tonelero. Se ele deixar, amanhã ou depois poderá também ser chamado para depor. E isso não combina com a disposição manifestada por ele depois de ter lido na semana passada a nota assinada por 30 brigadeiros cobrando sua renúncia à presidência da República.
Naquela ocasião, o presidente foi direto e franco em conversa com o portador da nota, o chefe do Estado Maior das Forças Armadas João Batista Mascarenhas de Moraes: – Ainda que me veja abandonado pela Marinha, Exército e Aeronáutica, e pelos meus próprios amigos, eu resistirei sozinho. Já vivi muito. Agora posso morrer. Nunca darei, entretanto, uma demonstração de pusilanimidade.
Alguns amigos ainda estão com ele. Mas esses não têm o menor poder de fogo para reverter o quadro de absoluta solidão política em que se encontra o mais longevo governante que o país conheceu.
Getúlio chegou ao poder em 1930 como chefe de uma revolução. Comandou um governo provisório até ser eleito presidente pela Constituinte de 1934.
Na condição de presidente, governou até novembro de 1937. E dali até outubro de 1945 governou como ditador.
Deposto pelos militares, ao poder retornou pelo voto popular em janeiro de 1951.
Está prestes novamente a perder o poder.
Ao seu redor, ninguém acredita que a licença temporária do cargo lhe devolverá o cargo mais tarde.

24/08/1954 07:59
– O “Anjo Negro” abriu o bico O “major” Gregório Fortunato é um homem que não ri nunca. Olha as pessoas de cima para baixo, com seu imenso corpo envergando ternos de casemira inglesa e chapéus panamá, tem as unhas finamente tratadas, possui carros de luxo e uma legião de agentes de seguranças recrutados na zona rural de São Borja, terra natal de Getúlio e também a dele.
Enriqueceu a sombra do chefe, que não liga e nunca ligou para dinheiro. É adulado por políticos e empresários, que antes ou depois de passarem pelo gabinete de Getúlio sempre passam por sua sala no andar térreo do Catete. Criado desde criança pela família Vargas, é capaz de matar ou de morrer por ela.
Tudo indica que por ela mandou matar Lacerda e, sem querer, matou o major-aviador Vaz.
O poderoso Gregório, cujo perfil tracei acima, deixou de existir desde que foi preso por oficiais da Aeronáutica no último dia 11 – menos de uma semana depois do atentado da rua Tonelero.
Na “República do Galeão”, Gregório fraquejou pela primeira vez na vida. Depois de resistir impávido até a ameaça de ser jogado de um avião em pleno mar, e de receber a visita do deputado udenista Adauto Lúcio Cardoso que lhe cobrava “o nome do mandante”, ele desmoronou ao ver uma edição falsa da “Tribuna da Imprensa” que pensou ser verdadeira.
Diante dos coronéis Adil e Scaffa Falcão, encarregados do inquérito aberto pela Aeronáutica, o “Anjo Negro” de Getúlio leu no jornal que Benjamim Vargas havia confessado ser o mandante do crime – e que fugira em seguida para Montevidéo. Gregório inocentou Benjamim. E desde então se dispôs a contar o que sabe.
Como costuma ocorrer com presos que abrem o bico sob tortura, Gregório deve se dispôr também a contar o que não sabe.
24/08/1954 08:15
– De barba feita e sozinho – Agora és tu, mais tarde com toda certeza quererão a mim. Essas coisas são feitas por tabela. É o cerco, não é? – perguntou Getúlio ao irmão Benjamim ao lhe abrir a porta do seu quarto no segundo andar do Palácio do Catete.
Getúlio aconselhou Benjamim a não ir depor na Base Aérea do Galeão. Dali a instantes, o ajudante-de-ordem viu Getúlio passar em robe de chambre para seu gabinete particular no mesmo andar. Ele trancou-se no gabinete por três ou quatro minutos.
O mesmo ajudante-de-ordem e Alzirinha, que como de hábito estava ao telefone, viram Getúlio voltar ao quarto com a mão esquerda dentro do bolso do pijama segurando algo.
Getúlio mandou chamar o barbeiro da presidência. Depois chamou Benjamim. O irmão reuniu-se com ele no quarto já sabendo o que Getúlio soubera pouco antes: que os generais rebelados não aceitam a licença temporária do cargo. Querem a renúncia.
De barba feita e depois de ter despachado com o irmão, Getúlio fechou a porta do quarto e ficou sozinho. Está só desde então.

24/08/1954 08:25
– ??????????????????????????? Aconteceu alguma coisa no Palácio do Catete!
24/08/1954 08:30 – Choro nas escadas do Catete
Tem gente entrando e saindo às pressas do Palácio do Catete.
Um soldado que dá guarda ao palácio viu um ajudante-de-ordem do presidente Getúlio Vargas descer as escadas chorando para de imediato tornar a subi-las.

24/08/1954 08:33 – Ambulância a caminho do Catete Um enfermeiro do Hospital Souza Aguiar ouviu há pouco de um médico que uma ambulância saiu em disparada com destino ao Palácio do Catete. A direção do hospital está a par disso. Há muito nervosismo entre os médicos.

24/08/1954 08:36
– Sem acesso, sem notícia As linhas telefônicas do Palácio do Catete estão ocupadas. É impossível ligar de fora para lá.
24/08/1954 08:40
– Um tiro. Ouviu-se um tiro
Foi um tiro.
Ou melhor: ouviu-se um tiro há pouco no Palácio do Catete.
Há pouco, não. Há mais de 20 minutos, pelo menos.
Foi tudo que deu para saber até agora.
Até mesmo o tiro ainda não está confirmado.
Foi um tiro, sim. Foi.

24/08/1954 08:43
– Tem uma ambulância no Catete As poucas dezenas de pessoas que olhavam há pouco curiosas na direção do Palácio do Catete viram chegar ali uma ambulância.
Os soldados que protegem o palácio estão nervosos. Um deles foi ríspido com uma mulher de meia idade que perguntou pelo presidente.

24/08/1954 08:45
– Getúlio está morto Parece que o presidente Getúlio Vargas está morto.
Sim, o presidente Getúlio Vargas morreu.
Ele morreu.
O presidente Getúlio Vargas morreu.

24/08/1954 08:50
– Getúlio se suicidou Alzirinha confirmou para um amigo dela que o pai morreu. Deu um tiro no coração.
O presidente Getúlio Vargas se suicidou.

24/08/1954 08:55
– Deu no Repórter Esso Em edição extraordinária, o Repórter Esso acabou de anunciar que o presidente Getúlio Vargas se suicidou.
Começa a crescer o número de pessoas nas vizinhanças do Palácio do Catete. Uma mulher desmaiou e foi carregada por um soldado para os jardins do palácio.
A ambulância está parada lá dentro.
E nesse momento…

24/08/1954 09:00
– Getúlio deixou uma carta Tem uma carta-testamento deixada por Getúlio. Ela será divulgada daqui a pouco. Estão passando uma cópia para Heron Domingues, locutor do Repórter Esso.

24/08/1954 09:06

– “Saio da vida para entrar na História” Eis a carta-testamento do presidente Getúlio Vargas. Estava na mesa de trabalho dele no segundo andar do Palácio do Catete.
“Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se a dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.”

24/08/1954 09:36

– Sim, talvez, quem sabe… A maré começou a virar.
A essa hora, há fortes sinais na paisagem do Rio de que a opinião das pessoas, até ontem claramente desfavorável ao presidente Getúlio Vargas, pode mudar de direção.
Na rua do Ouvidor, no centro da cidade, ainda há pouco passou um grupo dando vivas a Getúlio e vociferando contra Lacerda.
As pessoas que se aglomeram perto do Palácio do Catete rezam, choram e gritam o nome do presidente.
Um sincero sentimento de dor espalha-se por toda parte.
O motorista de um amigo meu, que ontem se queixava do custo de vida e criticava Getúlio, desatou no choro quando soube que ele está morto.
Ainda é cedo, muito cedo para concluir que o gesto do presidente foi o último e mais duro golpe político aplicado por ele em seus adversários. Mais tarde é possível que tal conclusão se revele certa.

24/08/1954 10:13
– Getúlio, da revolução de 30 ao suicídio 1930 – Eclode a revolução de 30. Um grupo de militares exige a renúncia do presidente Washington Luís. Getúlio assume o Governo Provisório depois de ter disputado e perdido a eleição para o paulista Júlio Prestes.
1931 – É promulgada, em março, a Lei de Sindicalização, subordinando os sindicatos ao Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, recém criado.
1932 – Promulgação do Código Eleitoral que cria a Justiça Eleitoral e institui o voto secreto e o voto feminino. Em 9 de julho, eclode a Revolução Constitucionalista em São Paulo, que é derrotada pelo Governo Provisório em outubro.
1933 – Em março, realizam-se eleições e, no dia 15 de novembro, instala-se a Assembléia Nacional Constituinte.
1934 – Em julho, a Assembléia Nacional Constituinte promulga uma nova Constituição e elege Getúlio presidente da República.
1935 – Grupos ligados à Aliança Nacional Libertadora (ANL) promovem revoltas em quartéis de Natal, Recife e Rio de Janeiro, num episódio que ficaria conhecido como Intentona Comunista.
1937 – Instauração da Ditadura do Estado Novo. Uma nova Constituição é outorgada no Brasil. O Congresso é fechado e os partidos políticos extintos.
1938 – Integralistas atacam o Palácio Guanabara onde se encontravam o presidente e sua família.
1939 – Criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) com o objetivo de difundir a ideologia do Estado Novo junto às camadas populares. Tem início a Segunda Guerra Mundial.
1940 – No Dia do Trabalho, a lei do salário mínimo, de 1939, entra em vigor.
1941 – Criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Instalação, em todo país, da Justiça de Trabalho (CLT).
1942 – O Brasil declara guerra ao Eixo, completando seu alinhamento aos Estados Unidos.
1943 – No dia do Trabalho, é anunciada a Consolidação das Leis de Trabalho (CLT).
1945 – Criação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Em 29 de outubro, Vargas é deposto pelo Alto Comando do Exército. O general Eurico Gaspar Dutra é eleito presidente e Vargas, deputado e senador pelo Rio Grande do Sul e São Paulo.
1946 – Dutra toma posse em janeiro. Em setembro, a Assembléia Nacional Constituinte promulga a nova Constituição.
1950 – Candidato pelo PTB, Vargas é eleito em outubro presidente da República.
1951 – Getúlio toma posse e privilegia medidas que considera necessárias para a industrialização do país.
1952 – Vargas inaugura o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e estatiza a geração de energia elétrica, decidido a lutar pelos interesses nacionais.
1953 – João Goulart (PTB), ministro do Trabalho, propõe aumento de 100% do salário mínimo. É criada a Petrobrás e instituído o monopólio estatal na produção do petróleo. Essas medidas provocam a reação dos conservadores liderados pela UDN.
1954 – Atentado contra Carlos Lacerda (UDN) no dia 5 de agosto resulta na morte do major-aviador Rubem Vaz e desata a mais grave crise político-militar do governo Vargas. Na madrugada de hoje, durante reunião ministerial no Palácio do Catete, Getúlio foi pressionado a renunciar, mas escolheu a via da licença temporária do cargo. Os militares descartaram a licença e insistiram com a renúncia. Horas depois o presidente suicidou-se. Tinha 71 anos.

24/8/1954 11:09

– Na cama, ensangüentado Quando chegou de ambulância no Palácio do Catete por volta das 8h20m, o médico Rodolpho Perissé, 27 anos, de plantão no serviço externo do Hospital Souza Aguiar, não fazia a mínima idéia de quem precisava dos seus cuidados. Imaginou tratar-se de alguma pessoa das vizinhanças vítima de um acidente.
Acompanhado por um enfermeiro, Perissé foi levado para o segundo andar. E ali, ao entrar no primeiro quarto do corredor à esquerda, deparou-se com a cena que jamais esquecerá.
Metido em um pijama com listas azuis e brancas, ensangüentado na altura do coração, jazia o corpo do presidente Getúlio Vargas. A cabeça estava mais para o meio da cama de casal onde ele costumava dormir. O resto do corpo, mais inclinado para a esquerda. Um dos pés pendia da cama.
Havia três pessoas sentadas na cama: Alzirinha, o marido Amaral Peixoto e o ministro Tancredo Neves, da Justiça.
A mulher de Getúlio, dona Darcy Vargas, desabara inconsolável numa poltrona próxima da cama. E numa cadeira ao pé da cama, o filho do presidente, Lutero, parecia em estado de choque. Ao seu lado, o ajudante-de-ordem Hélio Dornelles.
Perissé usou seu estetoscópio para verificar se o coração de Getúlio ainda batia. Não batia.
Levantou uma pálpebra, depois outra. Por fim, pingou éter nos olhos do presidente. Nenhum reflexo pupilar.
O corpo ainda não esfriara.
Constatou marcas de pólvora nas mãos de Getúlio, indicando que ele as usara para aproximar o cano do revólver do seu mamilo esquerdo e puxar o gatilho. Ele atirou por cima da roupa. – O que vão fazer com ele? – gemeu dona Darcy. – O presidente Getúlio Vargas está morto – anunciou o médico.
Alzirinha teve a impressão de que o pai esboçara um sorriso quando ela irrompeu no quarto dele depois ter ouvido o barulho seco do disparo. No instante seguinte, o sorriso sumiu.

24/08/1954 12:10
– O desespero de Gilda (por Millôr Fernandes) No escuro da madrugada o telefone toca sem cessar. Atendo, apreensivo, como sói. E’ Gilda: ”Pelo amor de Deus, vem cá.”
“Agora?.São quatro da manhã!”.
“Agora, pelo amor de Deus!” A voz é desesperada.
Gilda mora também aqui em Ipanema. Quatro quadras adiante.Vou correndo (sou um atleta das quantas). Ainda correndo subo as escadas: o edifício de Gilda não tem elevador.
Gilda deixou a porta entreaberta. Está jogada no sofá. Beijo-a, protetor: “Que foi, meu bem? “
Com expressão abandonada ela estira o braço e me entrega o
envelope elegante, junto com uma folha de papel timbrado da Presidência da República: “Chegou há meia hora”.
Leio a carta:
“Gilda, antes que as forças me desfaleçam, decido com bravura o meu destino. O resto suportaria com denodo – teu abandono é o que me fere de maneira insuportável. Quando mais precisava, tu foges de mim. Tenho resistido, dia a dia, hora a hora, no desespero deste amor tardio, mas é tudo inútil. Sem teu amparo, renuncio a mim mesmo. Se nada mais me queres dar, te dou o meu sangue, te ofereço, em holocausto, a minha vida.
Escolho este gesto para estar sempre contigo.
Meu sacrifício só você saberá que foi por amor, não pelo poder. Meu sangue será uma chama imortal em tua consciência, e me
manterá para sempre em tua memória e em teu coração. Ao teu abandono respondo com o perdão. Era escravo do teu amor, e escravo parto para a vida eterna.
Serenamente dou um passo saindo da vida, enquanto a morte entra em nossa história. “
Antes que eu acabe de ler a última linha, o telefone toca.
Gilda atende: “Alô? Está!.”
Sem dizer nada, me passa o telefone. Era o Nasser: “Preciso
de você aqui na redação. O Getúlio se suicidou.”

24/08/1954 13:20
– Aquele urro medonho, assustador… Está nas ruas do Rio a edição de hoje do jornal Última Hora com a manchete “Ele cumpriu a palavra – Só morto sairei do Catete”.
Não tem jornal para quem queira.
A edição está sendo reimpressa continuamente. Baterá recorde de venda – alguma coisa superior a 600 mil exemplares, segundo projeções do seu dono, o jornalista Samuel Wainer.
Os demais jornais da cidade foram impedidos de circular por multidões furiosas que atacaram suas instalações ou embargaram suas vendas. Eles bateram em Getúlio sem dó nem piedade.
Samuel foi informado do suicídio pelo repórter Luis Costa que estava dentro do Palácio do Catete: – O presidente acaba de dar um tiro no coração – avisou Costa transtornado.
“Desliguei o telefone e corri para a oficina do jornal”, conta Samuel. “Encontrei operários chorando, outros desmaiados. Lembrei-me de que a página com a manchete publicada na véspera – “Só morto sairei do Catete” – continuava composta em chumbo. Tive a idéia de republicá-la exatamente como saíra na véspera, mudando apenas alguns detalhes. Abaixo da frase em que Getúlio previa que não o tirariam vivo do palácio, descrevi o suicídio. Depois subi até a redação, fui para um canto da minha sala e então chorei, chorei bastante”.
Foi quando chorava que Samuel diz ter começado a ouvir “um rugido feito de milhares de vozes que vinham lá das bandas da Candelária”. Ele olhou então pela janela e viu “uma multidão de manifestantes descalços, subnutridos, feios. Gritavam: “Getúlio”. E eu reconheci o mesmo urro medonho, assustador, com o qual me familiarizara durante a campanha eleitoral de 1950”.
A massa estancou diante do prédio do jornal e exigiu que Samuel discursasse. Ele o fez pedindo tranqüilidade.
Não haverá hoje tranqüilidade no Rio – nem na maioria das grandes cidades do país.

24/08/1954 14:41
– “A resposta do povo virá mais tarde…” Do colaborador deste blog, André Noblat:
“Assessores e parentes do presidente morto se recusam a confirmar a informação de que a carta-testamento divulgada na manhã de hoje estava pronta e assinada há vários dias. E que ela foi um manifesto político antes de virar a carta de um suicida.
Quem se mata costuma deixar algo escrito pouco tempo antes de consumar o gesto. Com Getúlio não foi diferente.
A verdadeira carta de despedida de Getúlio foi escrita de seu próprio punho em bloco de papel timbrado da Presidência da República. Tem cinco páginas cuidadosamente numeradas e 247 palavras. Seu tom é menos ufanista do que o empregado na carta-testamento. E trai toda a amargura sentida por Getúlio nos seus derradeiros instantes.
A certa altura dela, o ex-presidente diz que “a mentira, a calúnia, as mais torpes invencionices foram geradas” contra ele “pela malignidade de rancorosos e gratuitos inimigos, numa publicidade dirigida e escandalosa”. Getúlio anota a “fraca disposição” para a sua defesa daqueles que estavam ao seu lado. E conclui: – A resposta do povo virá mais tarde…
O redator dos discursos de Getúlio, José Maciel Filho, foi quem deu a forma final à carta-testamento que está sendo lida pelo país a fora e que será incorporada em breve ao programa do PTB, partido criado pelo ex-presidente.
Há uma forte suspeita entre políticos ligados aos Vargas de que o último parágrafo da carta-testamento foi acrescentado por Maciel Filho depois que Getúlio já a assinara. O parágrafo reúne as palavras mais impactantes da carta: – Vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente, dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

24/08/1950 14:57
– Sabo, Berger, Olga Prestes… (por Elizabeth Cancelli) Puxou a cadeira e a xícara de café um pouco mais para perto do rádio. Precisava escutar melhor, sua audição não era boa. A escuta havia sido prejudicada desde a juventude. Nos pesadelos, ainda podia sentir a dor dos tapas do torturador.
Arrastou mais do que depressa a cadeira de palhinha. O locutor falava pausada, mas nervosamente. Não havia dúvidas, Getúlio estava morto, mortinho da silva.
Por um momento era como se tivesse saído da cidade, não parecia que morava no Rio, que havia barulho, gente, vida. Não ouvia nada, revolvia a memória.
Lembrou-se tanto de sua amiga Sabo! Haviam-se conhecido na prisão, ambas foram pegas logo depois do fracasso de 35. Pensou nas conversas sussurradas e na esperança que Sabo tinha de não ser deportada para a Alemanha, da dor que sentia nos seios queimados com pontas de cigarros. Lembrou-se das intermináveis noites na prisão e das colegas presas contrabandeando informações. Harry Berger estaria muito mal. Sabo fora torturada na sua frente e ele mesmo não estava agüentando as sessões de tortura, o ferro quente que lhe enfiavam pela uretra.
Será que se Sabo e Olga estivessem vivas elas se sentiriam vingadas com a morte de Getúlio? Será?
Voltou seu pensamento para Harry Berger. E ele, será que se daria conta de que o pequenino ditador que o transformara em um louco estava morto? Achava difícil. Um amigo lhe contara que fora ver Harry na Alemanha há alguns meses. Continuava completamente louco, fora do mundo, coitado.
Ainda sentada na cadeira de palhinha, algumas lágrimas lhe rolaram pelo rosto. Sentia pelos amigos perdidos, pela violência, pela barbárie. Tinha muita raiva quando via Felinto Muller andar altivo pelas ruas do Rio e Getúlio sorrir como se fosse um velhinho inocente. Agora ele estava morto, estirado em sua cama no Catete. A verdade era que sofrera muito pouco pelo que havia feito. O suicídio acabou sendo uma saída fácil e cômoda.
Ela não se sentia vingada, apenas triste, muito triste.
(Sabo era o codinome de Elisa Iwert, mulher de Harry Berger. Os dois desembarcaram no Brasil no início dos anos 30 a mando da direção do movimento comunista internacional para ajudar o Partido Comunista Brasileiro (PCB) a depor o então ditador Getúlio Vargas. O que passou para a História como a Intentona Comunista de 1935 foi um fracasso. Elisa e Berger acabaram presos e barbaramente torturados pela polícia política de Getúlio chefiada por Felinto Muller. Junto com Olga Prestes, mulher de Luiz Carlos Prestes, líder do PCB, Elisa foi deportada para a Alemanha. Morreu tuberculosa em um hospital. Olga morreu num campo de concentração. Berger foi beneficiado pela anistia decretada por Getúlio em 1942 e mais tarde voou de volta para a Alemanha.)

24/08/1954 15:55
– Embalsamado quer dizer imortal? (por Ateneia Feijó) O pai em casa cedo e a mãe atarantada sem dar muita atenção aos afazeres domésticos, dispersa… sentando-se a toda hora ali na cadeira mais próxima do rádio. “Que exagero!” Pensa a menina de 11 anos, que acompanha há alguns dias as discussões entre o pai getulista e a mãe lacerdista. Aliás, todos discutiam.
A vizinhança inteira, no bairro carioca de Santa Teresa, falava do corvo, de um crime e de uma república do galeão. Ela e as outras crianças ouviam as conversas sobre o pai dos pobres, mas não se intrometiam no mundo dos adultos. Pré-adolescente… gosta mesmo é de conversar com as amiguinhas sobre namorados imaginários e as histórias dos livros que trocam. Mas Getúlio, o Presidente, a fascinava pelo tamanho de sua barriga quando aparecia nas charges ou em fotos nos jornais. E pela quantidade de retratos dele que enxergava quando ia de bonde para o colégio, na Tijuca. Quase todas as lojas e bares têm um retrato dele pendurado numa parede. E agora, o que aconteceria? Teria ele ido para o inferno?
De manhã, quando a diretora do colégio interrompeu a segunda aula do dia mandando todo mundo se levantar, fazer um minuto de silêncio e rezar um Padre Nosso pela alma do Presidente, ninguém entendeu nada. Só depois a diretora explicou que Getúlio Vargas tinha morrido e em sinal de luto o colégio ia fechar naquele momento. A menina sentiu-se repentinamente jogada na rua e divertia-se com a situação. Até perceber que tudo mudava à medida que as portas de comércio iam sendo fechadas.
Um clima esquisito multiplicava e apressava os passos de gente nas calçadas. O bonde que a transportava em direção ao Largo da Carioca, onde pegaria outro para Santa Teresa, começou a superlotar.
Duas mulheres sentadas ao seu lado conversavam de um jeito muito nervoso. Ahah… precisava escutar o que diziam. Escutou: “Suicídio é pecado mortal”. “Mas ele era um bom homem…” “Não adianta, ele se matou!” “Quer dizer que ele vai para o inferno?” A menina teve o sobressalto a tempo de escapar de um inferno real. O bonde não seguia mais em direção ao Largo da Carioca, solavancava sobre os trilhos da rua do Riachuelo.
O que faria? Seu anjo da guarda a guiou para a casa do padrinho, na rua Francisco Muratori, na qual também havia uma linha de bonde para Santa Teresa. Só que era mais caro… Bem, o padrinho lhe emprestaria o dinheiro que faltava.
Com o dinheiro emprestado chegou sã e salva aos braços da mãe e do pai que também fechara sua loja no centro da cidade.
A meninona vivera sua primeira grande aventura. Agora, ouvia no rádio que tinham embalsamado o corpo do Presidente e que ele ficaria exposto à visitação pública. Ué... Sem resistir à curiosidade, a menina pergunta aos adultos: “Embalsamado, ele pode virar um Presidente imortal?” O pai getulista sorriu.

24/08/1954 15:45
– Velório atrasou Ainda não começou o velório do ex-presidente Getúlio Vargas. Era para ter começado às 13h. Há milhares de pessoas formando uma gigantesca fila diante dos portões do Palácio do Catete. O presidente Café Filho ofereceu à família Vargas o salão de honra do palácio para que o velório ocorresse ali. A família recusou.
O caixão ficará num espaço da parte de detrás do Catete que dá para os jardins.
O trabalho de embalsamamento do corpo está sendo executado por cinco médicos sob as ordens do diretor do Instituto Médico Legal. Levará quatro horas até ser concluído.
Um modelador do Instituto de Belas Artes encarregou-se de fazer em gesso a máscara mortuária de Getúlio, enquanto um desenhista traça seu perfil a lápis.
Foi dispensada a necropsia.
Getúlio não recebeu extrema-unção.

24/08/1954 15:52
– Lacerda, cadê voce?
O general Henrique Teixeira Lott é pule de dez para o Ministério da Guerra do presidente Café Filho. O brigadeiro Eduardo Gomes só não será ministro da Aeronáutica se preferir permanecer em casa de pijama.
Carlos Lacerda desapareceu. É possível que tenha se refugiado na Base Aérea do Galeão. Está convencido de que a carta-testamento de Getúlio é falsa. E reclamou em telefonemas para aliados de Café Filho da excessiva divulgação que ela tem tido. – O que vocês querem com isso? Querem jogar o povo contra o novo governo? – perguntou Lacerda pela manhã a um amigo de Café Filho.
O clima nas ruas do Rio mudou por completo. Quem ontem xingava Getúlio hoje chora por ele. Quem ontem queria ver Getúlio preso hoje pede a cabeça de Lacerda.
Tem havido quebra-quebra em diversas capitais.
No Rio, milhares de pessoas atacaram a embaixada dos Estados Unidos e a polícia foi obrigada a intervir com violência. A polícia impediu a invasão do prédio da Tribuna da Imprensa.
Em Porto Alegre, três ou quatro pessoas foram mortas à bala durante a depedração do consulado norte-americano.
O retrato de Getúlio já pode ser visto em Salvador entre imagens de santos veneradas em altares particulares. Atabaques soaram por ele em diversos terreiros de candomblé.
24/08/1954 16:26
- Daqui a 50 anos, certamente (por Cora Rónai) Se o impacto dos suicídios pudesse ser medido pela escala Richter, o gesto do ex- presidente Getúlio Vargas certamente ultrapassaria os 6.8 pontos do terremoto verificado às 5h51m de hoje em Stillwater, EUA. Não há nada na memória recente do Brasil que se compare ao abalo que, neste momento, sacode o país.
Ainda que seja difícil avaliar no calor da hora e no epicentro da tragédia a magnitude da sua repercussão, é inquestionável que o suicídio de Getúlio é, desde já, um dos pontos de maior destaque da História do Brasil. Uma história que -- para nossa possível felicidade -- carece de bons elementos dramáticos.
A despeito de qualquer opinião que dele se faça, cumpre reconhecer que o ex-presidente teve, como poucos, o sentido dessa História. Seu último gesto reveste-se de tal carga emocional que, daqui para a frente, será impossível avaliar com serenidade qualquer aspecto da sua herança.
O suicídio não deu fim apenas à sua vida, mas também à objetividade da memória coletiva. Assim, a notícia que ouvimos cedo no rádio e que logo estaremos lendo nos jornais continuará ecoando ao longo dos anos, repetida -- e reinterpretada -- em centenas de livros, peças de teatro, filmes e novelas de rádio, para sempre gravada no imaginário popular.
Não será de admirar se, daqui a 50 anos, os brasileiros ainda estiverem falando deste 24 de agosto de 1954 como se fosse hoje.

24/08/1954 - 16:33

- Novos fantasmas metem medo (por Manuel Martinez) “Saio da vida para entrar na História”
Mas a qual história o ex-presidente Getúlio Vargas queria se referir em sua carta-testamento? Como será o futuro, condição necessária para que Vargas possa ser lembrado?
É inegável que nos últimos nove anos, desde o fim da 2a. Guerra, o mundo se encontra dividido entre capitalismo e comunismo, tendências político-econômicas encarnadas pelos governos dos Estados Unidos (EUA) e da União Soviética (URSS), respectivamente.
Se por um lado o fantasma do fascismo foi derrotado, por outro americanos e soviéticos alimentam o surgimento de novos fantasmas: o da guerra atômica e o da desconfiança mútua permanente.
O conhecimento de um dos usos da fissão do átomo foi tristemente demonstrado em Hiroshima e Nagasaki, cidades japonesas devastadas pelo poderio atômico dos EUA. Tal fato encerrou a 2a. Guerra Mundial.
Mas a exagerada demonstração de força fez prosperar a suspeita de que ela foi a maneira encontrada por Washington para ressaltar sua pretensa supremacia.
A URSS não quis pagar para ver. Morto há um ano, Stálin, o todo-poderoso líder soviético, havia ordenado que se obtivesse essa tecnologia a todo custo. O pesadelo nuclear cresce com o temor de que os russos também tenham a essa altura a bomba atômica.
A chamada Guerra Fria viveu seu primeiro round com a Guerra da Coréia, terminada há poucos meses. Mas novos capítulos desse conflito cínico deverão vir por aí.
É inegável que o multilateralismo e a integração física, comercial e política sem interesses belicistas perderam terreno – e não se sabe se um dia o recuperarão.
”Dou o primeiro passo no caminho da eternidade”, disse Vargas.
Os próximos dez anos serão decisivos para esclarecer que tendências geopolíticas os países seguirão definitivamente. Isso nos permitirá saber quanto tempo durará a eternidade pretendida pelo ex-presidente e a forma como ele será lembrado.


24/08/1954 16:45
- Tiro no pleito (por José Viegas Filho) Escapei da prisão.
Hoje eu ia começar a cumprir cinco dias de detenção no Colégio Militar, no Rio de Janeiro, onde faço o primeiro ano do curso ginasial. E só porque escrevi o meu número – 1188 – na carteira da sala de aula com uma gilete.
Menino de onze anos, acordei triste e inquieto com a perspectiva da prisão, e fui para o colégio com o coração pesado. De repente, veio a notícia da morte do Presidente. Vi as caras sérias e preocupadas dos tenentes, do comandante da Companhia, até que ordenaram:
- Todo o mundo para casa. Não tem mais aula.
Eu ainda perguntei:
- Não vai ter prisão também não?
Eles repetiram:
- Todo mundo embora.
Lembro que os outros que também iam ficar presos comemoraram. Eu não. Afinal, ainda terei cinco dias de prisão pela frente. Quando cheguei em casa, minha irmã maior, já ecoando comentários lacerdistas, disse:
- O Getúlio deu um tiro no pleito.
- Não foi no peito?
- Não, foi no pleito.
(Haverá eleições para deputados e governadores em outubro próximo.)

24/08/1954 17:05
- A dura vida de repórter (por Jânio de Freitas) Chegamos à frente do Palácio do Catete entre oito e nove horas da noite de ontem. O Diário Carioca tivera a informação de que logo começaria uma reunião importante no palácio, de ministros e políticos de relevo com Getúlio.
Recém-iniciado no beabá do jornalismo, fui mandado em dupla com Armando Nogueira, profissional já tarimbado por anos de reportagem, para ver o que conseguiríamos. A intenção, claro, era entrar no Catete, sentir o ambiente, ouvir o que fosse possível. O dia fora muito perturbador, de tensão altíssima, varrido de boatos em todos os sentidos.
Primeira frustração: não podíamos entrar no palácio. O acesso pela porta principal estava impedido. Toda a fachada estava isolada e guardada por soldados. O portão de grades, dando para o jardim, estava fechado e guardado por funcionários. Ficamos por ali, na expectativa de que não tardasse a permissão de acesso de jornalistas.
O que ocorreu pouco depois foi o aumento da vigilância com a interdição da rua do Catete, na região do palácio, ao tráfego de carros e bondes. Talvez alertados por notícias de rádio, que todos ouvem quase sem interrupção nesses dias agitados, o número de curiosos aumentava, sem chegar, porém, a uma grande quantidade. Eram pequenos grupos esparsos, em geral discutindo a situação.
A chegada de alguns carros oficiais, que entravam pelo portão de acesso aos jardins, deu a Armando e a mim, afinal, uma atividade determinada: tratava-se da tentativa de identificar em cada carro, com chegadas a intervalos irregulares, quem eram os seus ocupantes.
Tarefa muito difícil, pelo escuro do interior dos carros e, sobretudo, pela posição a que àquela altura estávamos obrigados: a calçada oposta à do palácio, exatamente no trecho mais largo da nada estreita rua do Catete. A percepção de uma figura, um rosto, me ficou gravada para sempre: o general Zenóbio da Costa, o ministro da Guerra que parecia ser o sustentáculo militar inabalável para Getúlio.
Com a chegada paulatina de mais curiosos, os soldados passaram a fazê-los retirar-se. E logo chegou a nossa vez. Mas, aparentemente únicos repórteres por ali, obtivemos a concessão de permanecer. O que não era tão cansativo, mesmo com o passar das horas, enquanto se dispunha até do botequim aberto na esquina.
Talvez lá pela meia-noite, fomos avisados de que mais ninguém poderia ficar ali. Não, nem jornalistas, ninguém. Sem motivo perceptível para isso, só transeuntes seriam permitidos.
Foi assim e por isso que Armando Nogueira e eu praticamos a nossa maratona cívica: passamos a andar de uma ponta à outra da calçada em frente ao palácio, ida e volta sem parada alguma, andamos e andamos, andamos hora após hora, passando pelos mesmos soldados, andamos até umas quatro da manhã, talvez mais para as cinco.
E então os carros oficiais, grandes, todos negros, começaram a sair sinistramente, como se vomitados por espasmos do jardim um logo atrás do outro. Em seguida foram os soldados que se retiraram da rua e das calçadas, sumiram. E à nossa frente, oferecida, generosamente receptiva, lá estava aberta a grande porta principal do Palácio do Catete. Não é provável que em algum outro dia de sua longa e tumultuada história a grande porta do Catete tenha experimentado tamanho abandono. Um sinal que não traduzimos então.
Entramos. Nem guarda, nem porteiro, nem outro funcionário. Ninguém. Passamos às entranhas do palácio. E no primeiro salão, com várias poltronas de estilo inglês, grandes, de couro vermelho escuro que o uso do poder lustrara bem, enfim encontramos uma pessoa. Pensativo, o enorme cansaço muito evidente no rosto, terno bege, ali estava o jovem ministro da Justiça do governo Getúlio Vargas: Tancredo Neves.
Era a segunda vez que o via naqueles dias. Ainda me espanta a calma atenção que nos concedeu. Aceitou com naturalidade nossa repentina presença e, sem mover mais do que o rosto exausto em nossa direção, nos disse que a reunião não estabelecera decisões e que novos encontros aconteceriam no decorrer do dia.
Vimos uma ou outra pessoa em dependências contíguas, mas ninguém expressivo. Àquela hora, o Diário Carioca já estava saindo de sua alquebrada rotativa, e nem sequer precisávamos procurar um telefone para reportar a Pompeu de Souza ou Luiz Paulistano os frutos minguados de nossa noitada. Estávamos com um dia e um noite de trabalho direto nas costas. Cada qual foi para sua casa.
Foi só o tempo de comer alguma coisa e desabar na cama. E nesse instante ouvir o fantástico prefixo do Repórter Esso. Ligar, autômato, o rádio na cabeceira e ouvir, sucinta e aguda, a morte de Getúlio posta em um noticiário de segundos. Voltei a me vestir, mas o telefone não esperou que acabasse: Pompeu de Souza me chamava para a redação.
Não sei quantas vezes cheguei à redação, narrei ou redigi, e saí outra vez, às carreiras. É impossível lembrar a seqüência de acontecimentos dramáticos, violentos, incontroláveis, gerais na cidade, do centro aos subúrbios. Os jornais costumam narrar poucos fatos suburbanos.
Os acontecimentos no centro foram tantos e tão intensos que eles retiveram repórteres e fotógrafos.
Ataques ao Globo e à Tribuna de Imprensa. A multidão impondo o fechamento do comércio por luto. Reuniões de políticos no Senado, na Câmara, nas casas de muitos deles. A movimentação no Ministério da Guerra, na apelidada República do Galeão, a base aérea em que lacerdistas da Aeronáutica se concentraram para caçar os autores do atentado contra Lacerda.
E Carlos Lacerda, onde estava, o que fazia, no momento em que chegava ao desfecho a campanha que conduzira contra Getúlio? Do meio para o final da tarde, a agitação mais violenta se aquietou diante da perspectiva de ter início o velório do ex-presidente.

24/08/1954 17:47
- Pai dos pobres, refém deles Embalsamado, dentro de uma urna coberta por uma tampa inteira de cristal, o corpo do ex-presidente Getúlio Vargas desce neste momento a principal escadaria do Palácio do Catete. Ou melhor: os que o carregam tentam descer com ele. Mas não conseguem da primeira vez. Esbarram numa multidão compacta que ocupou todos os espaços permitidos dentro do palácio - e foi muito além deles.
Há cenas de histerismo protagonizadas por mulheres mais idosas. Algumas desmaiam e são socorridas por soldados. Um homem com pouco mais de 40 anos também desmaia.
O som do choro de toda aquela gente mistura-se ao som de rezas, de imprecações e de lamentos que cede lugar logo depois ao som das vozes que cantam o Hino Nacional do começo ao fim por três vezes consecutivas. Determinadas passagens do hino são sublinhadas não pela tristeza ou o fervor patriótico, mas sim pela raiva. Ouve-se novamente o que o jornalista Samuel Wainer, dono do jornal Última Hora, qualificou pela manhã de "urro medonho e assustador" -"Getúlio", "Getúlio", "Getúlio".
Há poucos vestígios aqui de "gente bem", engravatada e de educados modos. O corpo daquele que se apresentou durante quase vinte anos como "o pai dos pobres" ficará refém dos pobres até baixar amanhã à sepultura em São Borja.

24/08/1954 18:10
- No meio do caminho tem um corpo (por Luís Roberto Barroso) Vargas foi protagonista de todos os abalos institucionais das últimas duas décadas no Brasil e sua morte pode ser incluída como o último e mais dramático de todos eles. Vargas liderou, como se sabe, a Revolução de 30, que destituiu Washington Luiz e o levou ao poder, pondo termo à República Velha e à “política do café com leite”. Em 1932, sua demora em convocar a assembléia constituinte que elaboraria a nova Constituição foi um dos motivos alegados para a Revolução Constitucionalista, deflagrada em São Paulo. Convocada, finalmente, a constituinte e elaborada a Constituição de 1934, ela não teve sucesso na pretensão de institucionalizar um modelo político liberal e um início de Estado social. Foi vítima das circunstâncias históricas – a bipolarização ideológica do mundo e a ascensão de regimes autoritários na Europa, em países como Itália, Alemanha, Portugal e Espanha, dentre outros – e do ímpeto ditatorial do Presidente.
Vargas rasgou a Constituição de 1934, no golpe do Estado Novo, e outorgou a Carta de 1937, que serviu mais como um símbolo do poder ditatorial do que como um instrumento de governo. Ao fim da segunda guerra, o presidente ainda tentou articular sua permanência no cargo, mas foi dele afastado por intervenção das Forças Armadas. A Constituição de 1946 coroou o processo de redemocratização e trouxe a esperança de um novo tempo de estabilidade política e de respeito às instituições democráticas. Vargas voltou nos braços do povo, na eleição consagradora de 1950, com uma plataforma de defesa do trabalhador e de proteção da economia nacional.
A oposição, representada por diversos segmentos militares e pela burguesia industrial e financeira, combateu desde a primeira hora o que considerava o “populismo nacionalista” de Vargas. E o atentado contra Carlos Lacerda, que vitimou o Major Rubem Vaz, forneceu combustível para o velho golpismo da política nacional. A formação da República do Galeão, como desdobramento do atentado ao Major Rubem Vaz, criou um poder paralelo e anárquico. E o discurso radical por trás da pressão pela renúncia do presidente fazia temer o pior. Nos últimos dias, a ameaça de que, mais uma vez, a Constituição seria desrespeitada, não era uma ficção. Embora a Carta em vigor, promulgada em 1946, preveja expressamente (art. 79, § 2º) que o Vice-Presidente Café Filho deveria suceder Vargas na hipótese de renúncia, outras soluções pululavam nas mentes mais criativas.
Os riscos de quebra institucional não se foram juntamente com Vargas, mas, ironicamente, a oposição parece excessivamente entorpecida para passar por sobre um cadáver e articular uma solução fora da legalidade. Melhor assim. Com ou sem Vargas, fora do respeito à Constituição o país ficará sujeito a novo golpe de Estado e ao colapso das instituições democráticas. Isso poderia representar o início de uma era marcada pela ausência das liberdades públicas e de sacrifício para os direitos humanos.       O país não deve correr esse risco.